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Situação Crítica

Situação Crítica

24/03/13

Johnny Stranger.

Estou a ser generosa quando digo que ele não sabia tocar guitarra. Ou banjo. Sentava-se nas escadas da cozinha, descalço, ria-se e tocava umas notas que nem ele sabia quais eram nem eu. A voz dele era outra coisa. Ligeiramente aguda, com um vibrato natural, não domado, selvagem. Abanava-se lentamente ao som do que quer que seja que tocava dentro da própria cabeça, dedo grande do pé a subir e descer ritmicamente, a roçar no soalho.
Era assombroso, para ser sincera, vê-lo assim. Tão imerso que eu deixava de o ver no matagal dele mesmo.
O que nos uniu primeiro foi uma paixão um pelo outro. Depois, foi uma paixão comum às palavras e às ideias por trás delas, pela maneira como podiam ser cantadas, rolar da língua quase com luxúria (para ele) e pela maneira como podiam ser conjugadas para formar padrões intrincados, pegar numa coisa simples e explicá-la à exaustão da complexidade (para mim). Por isso é que continuávamos ali depois de o deslumbramento ter acabado. Sempre fomos de nos entreter com rococós. Nunca tivemos importância. Éramos só duas pessoas juntas.
Quis escrever sobre isto porque a memória dele aparece-me sem razão, naquele limbo entre acordar e continuar na doce ignorância do sono. Às vezes lembro-me do nome dele, outras não. Mas normalmente fico só em pé naquele mesmo sítio da cozinha, como a pessoa que sou hoje, a olhar para ele e para além dele, como a pessoa que ele era então.
Não sei quem ele é. Agora. Não sei quem ele é agora. Podíamos estar sentados à mesma mesa, a ter exactamente as mesmas conversas, e eu só o acharia vagamente familiar.
Mas ainda lhe vejo a franja molhada a cair para a testa.
01/03/13

Hipócrates, perdoa-me.

Escolhi, literalmente, uma profissão de sigilo. Juramos a tal no dia em que o canudo encontra a mão e o Hipócrates vai-nos escrito na pele como se fosse um Pai Nosso. Mas isto é tudo teoria até deixar de ser, até ao momento em que, inevitavelmente, acontece a metamorfose de médico a confessor. Devia assustar-me, esta história de saber os segredos de cada pessoa que se senta do outro lado da grande muralha da China que é aquela secretária, quer ache que precise da minha ajuda ou não (e surpreende-me sempre a quantidade de pessoas que passam por aquele consultório a achar que nos estão a fazer um favor). Não assusta. Não perco sono com as maleitas e conflitos alheios, apesar de, no momento, poder perder a paciência, que já é escassa. No entanto, apercebemo-nos que somos todos iguais porque, enfim, aqueles segredos passam de certa forma a ser nossa responsabilidade, não só de guardar, mas de fazer alguma coisa, mesmo que esteja fora do nosso alcance. A partir do momento em que o doente diz algo que não pode ser repetido, é como se houvesse um coro geral dos anjos a cantar pronto, doutora, a responsabilidade agora já não é minha, é sua.

Resolva.

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