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Situação Crítica

Situação Crítica

19/06/14

Era Maio e eu roía as unhas.

É incrível como já na minha década dos 20 muitas das frases começam por: "Eh pá, lembras-te..." E acabam com um gigantesco e pesado ponto de interrogação que fica ali a pairar em cima da mesa do restaurante, debaixo da luz apropriada para casais, a ameaçar cair dentro do meu copo de sangria. Estas memórias evocadas não se limitam a pessoas, mas a momentos incrivelmente específicos. Surpreendo-me constantemente pela quantidade de coisas importantes que nunca cheguei a reter e a absurdidade de detalhes absolutamente menores que estão tão frescos como quando os vi pela primeira vez.

Também tenho uma espécie de Mind Palace. É uma sala muito particular onde são sempre seis da tarde, há um retrato do Liszt na parede. Dois pianos. Cortinas pesadas. Peitorais em granito sob janelas altas e estreitas. Há manchas de verniz das unhas na porta e no chão. Quando se presta atenção ouve-se sempre o mesmo excerto de Chopin, em loop perpétuo. As mesas estão dispostas em U e eu estou sempre sentada num canto, de frente para a porta que raramente abre e é escondida por um quadro gatafunhado de escalas e intervalos e ditados dos clássicos que um CD qualquer tocou. Cheira a partituras velhas, cadernos rasgados e resina. Naquelas mesmas cadeiras critiquei dedos partidos, mini-saias, namoradas, professores, decisões, e cantei pessimamente linhas melódicas atonais. O que me fascina é a forma como associo as minhas memórias a esse sítio onde já não entro há anos. Sei que ainda existe, que as mesas já não estão em U, que os pianos já devem ter sido movidos e afinados, já outros pés pisaram a carpete que não os meus. Mas na minha cabeça, aquela sala será para sempre o local ligeiramente poeirento dos meus 13 anos. Tocam-me no ombro, eu viro-me e sorrio a uma pessoa que está sentada ao meu lado e é em si uma memória. Pergunta-me porque estou tão pensativa hoje. Hoje que é o mesmo dia da última vez que visitei as coisas de que me lembro. Hoje que é aquele longuíssimo dia de Maio. Digo que não se passa nada, abro o caderno - as minhas unhas estão roídas - procuro a memória que me interessa nas entrelinhas.

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